Catanduva/SP - Domingo, 30 de Janeiro de 2005

Notícias edição impressa - Entrevista Domingo
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30/01/2005 
Trajano Leme Filho: Errar é Humano
Da Reportagem Local
Divulgação
 
Todo mundo adora parecer mais inteligente perto dos erros dos outros. Talvez isso explique parte do sucesso do livro de Trajano Leme Filho: ‘Os 50 Maiores Erros da Humanidade’.
O valor do livro está ancorado no destrinchar de erros de personagens e povos famosos da História, como Tiradentes, Visconde de Mauá, John Kennedy e os holandeses no Brasil.
Na composição do livro, o autor se preocupou com uma linguagem acessível, para demonstrar que tudo o que vivemos hoje é fruto de ações ou erros do passado.
O tema inusitado também rendeu registros em reportagem publicada na revista Galileu e foi pauta de uma entrevista no programa de Jô Soares.


O Regional - Dizem que errar é humano e repetir o erro é burrice. Na sua opinião, a humanidade costuma repetir os mesmos erros?
Trajano Leme
- Infelizmente sim. Principalmente quando o assunto é guerra. A humanidade ainda parece pobre mentalmente, incapaz de aprender com as falhas do passado para produzir um futuro mais igualitário. Exemplos assim podem ser encontrados na relação entre a Santa Inquisição, que durou mais de 650 anos desde a primeira condenação por heresia e o Apartheid, sua versão moderna de segregação racial; no Muro de Berlim, que também é um erro patético revisitado por Ariel Sharon, o todo-poderoso primeiro-ministro de Israel que está construindo um muro que no discurso separa israelenses inocentes de palestinos terroristas, mas na prática apenas aumenta o ódio entre esses povos; no 11 de setembro, resultado de cálculos errados dos Estados Unidos pensando que o provável ataque seria tão controlável quanto Pearl Harbor ou Vietnã; ou em Hitler, um déjà vu bonapartista, ansioso por conquistar a Rússia em pleno inverno.

O Regional - Dentre tantos erros, qual você classificaria como o maior erro da humanidade?
Trajano Leme
- No caso dos erros, esse triste topo do pódio ficou com a destruição da Biblioteca de Alexandria, retratada em detalhes no livro. Essa biblioteca nasceu para se tornar o maior centro de pesquisas e formação intelectual do mundo antigo. Idealizada pelos primeiros ptolomeus, a Biblioteca de Alexandria chegou a armazenar quatro milhões de volumes, todo produzido a partir das idéias filosóficas dos gregos e das experiências científicas de homens que dedicaram a vida à ciência. Lá foram encontrados registros dos primeiros livros que tratavam das leis da ótica, da hidráulica, da mecânica e até mesmo da crítica literária, algo surpreendentemente inovador, que falta demais no século 21 quando se fala em Internet - um mundo de informações sobre as quais é difícil avaliar a veracidade dos fatos. Dentro do livro, os fatos que são apresentados ao leitor podem levá-lo a refletir sobre perguntas que talvez jamais se encontre resposta. Por exemplo: será que o segredo da construção das pirâmides não estava guardado na Biblioteca de Alexandria? É por isso que este é o maior erro da humanidade. O maior erro do homem é acabar com a história da sua própria raça, é diminuir a propagação da cultura, é desestimular o pensamento individual.

O Regional - Você cita como exemplos os erros cabais de Tiradentes, dos holandeses, de Lampião e do falido Visconde de Mauá. De que forma a história deles poderia ter sido diferente? Que atitudes seriam determinantes para isso?
Trajano Leme
- No caso de Lampião, se o cangaceiro não tivesse cometido seu erro fatal, talvez vivesse por mais alguns anos até ser preso ou morto. No entanto, seu erro foi mencionado por ter sido muito peculiar, afinal de contas, um homem que vivia como caça, sempre metódico com seu bando preservando os aspectos de segurança, morreu porque cometeu uma imprudência infantil em seu último acampamento. Lampião era tão obstinado pela segurança, que em caso de derrota iminente durante um tiroteio não titubeava em fugir. Essa história de ‘cabra macho’ não era com ele. Era melhor ser apenas ‘cabra’ , mas vivo, do que ‘macho’, morto. Outro aspecto que procuro retratar em seu capítulo, é o momento em que as mulheres ingressaram em seu bando, até então totalmente masculino. Teriam sido as mulheres, especialmente Maria Bonita, a razão da imprudência do cangaceiro, que passou a ter ‘ outras preocupações’ mais prazerosas?
Tiradentes é um caso especial. Existem dois enfoques que procuro passar neste capítulo. O primeiro, abordando o erro fatal do inconfidente, que o fez fracassar na tentativa de tornar o Brasil independente de Portugal. O erro fatal de Tiradentes não foi permitir a entrada de traidores no grupo de revoltosos. Seria injusto atribuir tal culpa ao mineiro pois não havia meios de se afirmar que entre os inconfidentes havia um traidor. O segundo enfoque é o possível futuro que o Brasil teria, se tivesse conseguido sua independência por meio das armas. Nossa independência real, em 1822, foi praticamente comprada com a ajuda dos ingleses. Será que nosso patriotismo seria diferente hoje?
A história do Visconde de Mauá é a história da decadência do Império Brasileiro. Essa é a saga de um homem que chegou a possuir um capital igual ao orçamento do país inteiro e lutou sozinho contra o governo de Dom Pedro II e seus ministros conservadores. Ele construiu a primeira estrada de ferro do Brasil e fundou o banco que hoje se conhece como Banco do Brasil, mas perdeu tudo no final da vida, exceto sua dignidade. E lutou para vender tudo que tinha para não sujar seu nome.

O Regional - Os destinos desses personagens influenciaram a história. O que seria o Brasil, hoje, se os intentos deles tivessem obtido êxito?
Trajano Leme
- Seríamos, talvez, um povo mais patriótico, em tempo integral e não somente em dias de Copa do Mundo ou finais de jogos olímpicos.
É possível também imaginar um Brasil recortado de estradas de ferro, semelhante à Europa, dotado de uma infra-estrutura de fazer inveja ao restante do mundo, o que reduziria o temido ‘ custo Brasil’ , tornando nosso produto cada vez mais competitivo no mercado externo. Nossa indústria seria forte. O Visconde de Mauá dizia que “a indústria do ferro é a mãe de todas as indústrias”. O que pensar de um homem que dizia isso em pleno império, saudosista dos tempos do ouro fácil de Minas Gerias? Era um homem à frente de seu tempo. Com nossas jazidas de ferro, poderíamos estar à frente dos EUA na produção de aço e não continuar com o estigma de ‘país agrícola’, que nos persegue até hoje.

O Regional - Você fala também do crash da bolsa de Nova Iorque?
Trajano Leme
- Sim, há um capítulo especialmente dedicado a esta passagem da história mundial. A quebradeira geral das ações em Nova York ficou metaforizada pela imagem de homens de negócios se atirando do alto dos arranha-céus, fugindo das dívidas que não poderiam ser pagas numa única vida. É verdade sim que homens se suicidaram, mas tal cena não existiu. Eu procurei retratar a quebra da bolsa de Nova York desde a euforia dos anos 20, passando pela bolha financeira que se formava no sistema capitalista, até a explosão geral, que criou uma onda de desemprego nos Estados Unidos e assolou o restante do mundo, inclusive o Brasil cafeeiro. No entanto, além de analisar o erro fatal que causou tal estouro da ‘ bolha’ , mostro aos leitores o impacto dessa desgraça financeira no mundo: a ascensão de um ditador na Alemanha arrasada na Primeira Guerra Mundial - Adolf Hitler. A quebra da bolsa foi um dos maiores erros da humanidade, pois alimentou a semente de mais uma guerra mundial, alterou as relações sociais e econômicas entre as nações e mostrou que o capitalismo desenfreado, com o objetivo de lucro a qualquer custo, pode sair muito caro.

O Regional - A destruição das florestas foi algo que alterou por completo a geografia de países europeus, dos Estados Unidos e do próprio Brasil, apesar de aqui ainda termos mais florestas. Estas continuam sendo queimadas. Você acha que a humanidade realmente só se conscientiza dos próprios erros quando tudo está perdido?
Trajano Leme
- Infelizmente parece que é verdade. Apesar de alguns esforços crescentes de entidades ecológicas e de homens de dignidade sobrenatural, como Jacques Costeau e Chico Mendes, o mundo ainda caminha na contramão do equilíbrio. Vemos o descaso com que George Bush tratou o planeta Terra ao não assinar o Protocolo de Quioto, em 1997. Para ele, é “impossível que as indústrias de seu país diminuam sua produção”. E aquele é o mercado mais poluente do mundo. Portanto, a destruição das florestas alterou sim a geografia mundial e infelizmente vai alterar mais ainda com o temido efeito estufa.

O Regional - Muitos erros ficaram de fora do livro?
Trajano Leme
- Alguns erros realmente perderam lugar na obra. Posso citar o desenvolvimento de ditaduras militares na América Latina, o processo que a Microsoft está sofrendo atualmente contra seu monopólio (semelhante ao que sofreu a empresa petrolífera de J.D. Rockefeller em 1911), o Brasil não ter levado adiante o projeto do álcool como combustível alternativo na década de 1980, entre outros.

O Regional - Você diz que o que vivemos hoje é fruto de erros do passado. Há males que vêm para bem?
Trajano Leme
- Certamente. A quebra da Bolsa de Valores de Nova York é um exemplo da fragilidade do sistema capitalista, que vangloria o lucro a qualquer preço. Seu erro fatal levou os Estados Unidos a criar normas reguladoras para evitar novos desastres. Depois, tais regras propagaram-se pelo mundo. A ascensão de tiranos faz com que as nações do mundo mantenham os olhos sempre abertos para políticos de extrema direita, que pregam superioridade racial entre outras bobagens.

Acertando com os erros
Trajano Leme Filho é paulistano, tem 28 anos e trabalha na área de Tecnologia da Informação há cerca de uma década.
“Os 50 Maiores Erros da Humanidade”, lançado em outubro de 2004, pela editora Axcel Books do Brasil, é seu terceiro livro. Reportagens e outras informações podem ser vistas no site www.trajanoleme.com.br.
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