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Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br
Onde estão nossos heróis?
Por: Trajano Leme Filho
Este, definitivamente, não é mais um texto sobre corrupção. Aliás, só seria interessante mesmo se apresentasse ao público brasileiro novas gravações, novos documentos, enfim, evidências inéditas de um fato que perdeu seu ineditismo no Brasil há muito tempo.
Partindo do período da efetiva redemocratização nacional, em 1989, com a primeira eleição direta para presidente da República desde Jânio Quadros, dezenas de casos estarreceram a opinião pública: Fernando Collor, PC Farias e a Casa da Dinda; João Alves e sua inesgotável fonte de sorte para ganhar nas loterias; e o juiz Lalau. Nos tempos mais recentes temos o caso Valdomiro Diniz, as fraudes do programa Bolsa Escola, a roubalheira em Rondônia, a corrupção no IRB e nos Correios, e, finalmente, o mensalão dos deputados.
Recentemente, o Banco Mundial publicou o resultado de uma pesquisa afirmando que 5% do PIB mundial, cerca de 1,5 trilhão de dólares, são desviados por ano pelos canos da corrupção. Enquanto alguns políticos preocupam-se com a 'imagem da classe política', fazendo discursos belos nas palavras, mas sem nenhum plano efetivo de ação, a população comum segue sua vida no ritmo de sempre: aguarda pacientemente os efeitos negativos dos escândalos na economia e no comércio exterior, deixando o alto preço dessas conseqüências para os programas sociais usufruídos pelas classes mais baixas.
No meio desse imenso mar de lama em que o Brasil se encontra, cujas raízes históricas são muito estudadas e pouco absorvidas pela população, me pergunto: onde estão nossos heróis nacionais? Não os heróis do esporte ou da música, mas os grandes heróis da política, da austeridade, da legalidade. Os grandes heróis que, em vez de fazer politicagem barata para manter suas 'bases', lutavam pelo bem estar da nação. Os grandes heróis que, para fazer o bem pela pátria, mantinham-se acima dos partidos políticos. Pode parecer estranho, mas houve um tempo em que esses heróis existiram sim. Quem sabe uma rápida viagem através da História não os estimule a aparecer...
No campo da austeridade, tem-se José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o patriarca da independência do Brasil. Nascido em Santos, litoral de São Paulo, viajou na mocidade para Portugal, onde formou-se em direito e mineralogia, caindo nas graças da Corte lusitana, que lhe financiou uma viagem por toda a Europa para seu constante aperfeiçoamento. Mas José Bonifácio chegou a tal nível de intelectualidade, que a monarquia lusitana, temendo uma provável liderança deste brasileiro a favor da independência, lhe vetou durante dez anos o retorno ao Brasil.
Depois de conseguir a permissão do rei para regressar à sua terra natal, participou ativamente do Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, na qual convenceu o imperador dom Pedro I a permanecer no Brasil, contrariando as ordens das Cortes portuguesas. Como recompensa, foi nomeado ministro do Reino e dos Estrangeiros. Semanas depois de sua nomeação, José Bonifácio foi assistir a uma peça teatral, no dia em que, coincidentemente, recebeu seu salário. Como de costume, colocou o dinheiro de seu ordenado dentro da carneira de seu chapéu, que, por força do destino, foi roubado. Logicamente José Bonifácio ficou enfurecido, mas impediu que a história chegasse aos ouvidos do imperador, afinal de contas, isso era um problema de ordem pessoal. Mas através dos tortuosos caminhos da boataria, dom Pedro I tomou conhecimento do caso e deu ordem para que um novo pagamento fosse efetuado. José Bonifácio, apoiado por seu irmão, Martim Francisco, o ministro da Fazenda, recusou-se a aceitar o favor, alegando que o Estado não poderia se responsabilizar pelos infortúnios de seus funcionários. Enfim, o ano tem 12 meses para todos, e não 13 meses para alguns privilegiados.
Quando se fala em lealdade à pátria, aquela lealdade sincera e irrestrita, o grande herói é Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), duque de Caxias, o único duque brasileiro de todos os tempos. A serviço de dom Pedro II, Caxias lutou bravamente para manter a unidade do Império do Brasil, numa época em que nosso país se espremia entre o mar, a leste, e repúblicas, a oeste. Durante seu auge, já com 63 anos de idade, na feroz luta contra o ditador paraguaio Francisco Solano Lopez, durante a Guerra do Paraguai, Caxias tomou a frente do mal-preparado, mal-pago e desmotivado exército da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), para reverter a situação e garantir a tão sonhada vitória. Durante a sangrenta batalha de Itororó, em que a sorte parecia favorecer os paraguaios, nosso bravo soldado tomou a frente do batalhão e bradou: 'Sigam-me os que foram brasileiros!' A vitória se consolidou com seu conhecimento, sua estratégia, seu carisma, e, sobretudo, com seu amor ao Brasil, pois sem esse objetivo maior, acima de todas as recompensas mundanas, nada teria conseguido Caxias.
E Rui Barbosa (1849-1923)? Nosso Águia de Haia? Este notável brasileiro atravessou um fértil período da História brasileira: o Segundo Reinado, a abolição da escravatura, a proclamação da República, as fraudes do sistema eleitoral e o início de uma aproximação econômica do Brasil com os Estados Unidos. Era um homem corajoso, justo e incansável. Corajoso, pois em 1890, quando era ministro da Fazenda do governo provisório de Deodoro da Fonseca, ordenou a queima de todos os documentos, livros de matrícula e registros fiscais relativos à escravidão existentes em sua pasta, para evitar que os fazendeiros exigissem pagamento de indenizações por conta da abolição. Justo, pois colocou o 'mísero' Brasil em pé de igualdade com as grandes potências mundiais em 1907, durante a Conferência Internacional de Haia, na Holanda, em que Rui Barbosa revelou-se para o mundo. Incansável, pois esse soteropolitano jamais pensou em desistir da candidatura à presidência da República em 1909, quando sabia que perderia as eleições para o marechal Hermes da Fonseca, de forma fraudulenta. Todas as suas qualidades eram trabalhadas de maneira a privilegiar o grande atributo que deveria nortear as ações dos governantes brasileiros: a legalidade.
Joaquim Nabuco (1849-1910), contemporâneo de Rui Barbosa, foi um dos grandes abolicionistas, homem que, ao lado de seus companheiros (Luís Gama (1830-1882), André Rebouças (1838-1898), José do Patrocínio (1854-1905), entre outros), deu voz a uma classe muda na sociedade brasileira. Ele sabia exatamente o tamanho das mazelas que a escravidão causava há séculos para o Brasil, pois enquanto a Revolução Industrial enriquecia as nações preocupadas em consolidar seus parques industriais e gerar mão-de-obra assalariada, o Brasil ainda mantinha sua organização trabalhista baseada no trabalho escravo nas lavouras de café. Era a época onde 'o Brasil é o café, e o café é o negro'.
Dois meses antes da abolição oficial da escravatura, a princesa Isabel trocou o barão de Cotegipe pelo estadista João Alfredo Corrêa de Oliveira, no posto de Chefe do Gabinete Ministerial. Ambos eram do Partido Conservador, e os membros do Partido Liberal esboçaram naquele momento uma revolta, pois queriam entrar para a História como 'o partido que livrou o Brasil das amarras seculares da escravidão e do atraso'. Joaquim Nabuco, acima dessas preocupações mundanas, fez um discurso para milhares de pessoas em que disse: 'É preciso salvar os escravos, que não são liberais nem conservadores e não fazem questão de quem sejam seus salvadores.' Qualquer coincidência com as reformas dos nossos tempos, alvo de brigas entre situação e oposição, não é mera coincidência.
Para concluir esta breve lembrança dos heróis brasileiros, cito dom Pedro II (1825-1891), digno representante de uma classe quase extinta no Brasil: governantes que permanecem acima de discussões partidárias. Não se trata de uma 'apologia' à monarquia ou qualquer sublevação contra o sistema republicano vigente no Brasil. Tratá-se apenas da recordação de um homem que governou nosso país por quase 50 anos, deixando suas marcas de erros (sim, pois só erra quem faz) e suas contribuições de uma política mais branda e mais profissional. Em 1841, logo após ter sido coroado imperador brasileiro, dom Pedro II estabeleceu uma renda fixa que o Tesouro Régio deveria pagar à família imperial: o salário do imperador. Ao contrário de seus antecessores e antepassados, que tomavam dinheiro conforme seus humores, o imperador do Segundo Reinado determinou o pagamento de 67 contos de réis mensais à família imperial. Era muito? Isto definitivamente perde a importância se for levado em consideração que o valor permaneceu o mesmo até o fim da monarquia, em 1889, e que o marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República, aumentou o salário para 120 contos de réis por mês, quase o dobro do 'valor imperial'.
Enfim, onde estão os nossos Bonifácios, Caxias, Rui Barbosas, Joaquim Nabucos e Pedros II? Tenho certeza que eles existem, só estão escondidos por aí, talvez encobertos (não contaminados) pelo manto negro da corrupção que assola o Brasil. Precisamos de homens austeros, leais, justos, representantes de classes sem representação e governantes que se mantenham acima dos partidos políticos, não necessariamente nesta mesma ordem.
Para fechar esta mensagem afirmo que, antes de tais qualidades, precisamos de homens 'loucos'. Mas loucos, no melhor sentido 'utópico' da palavra, descrita com brilhantismo por Eugène Ionesco (1909-1994), escritor romeno, também dramaturgo do teatro do absurdo: 'Pensar contra o nosso tempo é um ato de heroísmo. Mas dizê-lo, é um ato de loucura.'
SOBRE O AUTOR: É escritor, autor do livro "Os 50 maiores erros da humanidade", e professor de pós-graduação na Fasp - Faculdades Associadas de São Paulo. trajano@trajanoleme.com.br.
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Mossoró-RN, de 2005