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Paulo Locatelli

Literatura

Entrevista

Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br

Erro e verdade

No final de 2004, a editora Axcel Books lançou o livro "Os 50 maiores erros da humanidade", de Trajano Leme Filho. O autor, "um aficionado de longa data por história", como ele mesmo confessa, pretende, em sua obra, apontar os 50 maiores erros da humanidade na história.

 A ele, pode-se atribuir os créditos de um aventureiro corajoso e ousado por apontar o que ele considera "erros da humanidade". Imagino que diante dessa tarefa ele correu, inevitavelmente, inúmeros riscos, inclusive o de cometer também alguns erros ao interpretar os erros da história. Somente um grande apaixonado pela história correria tantos riscos em nome de sua paixão.

Durante suas pesquisas, o autor foi levado pelos princípios cartesianos segundo os quais a razão humana deveria ser conduzida pela evidência, análise e síntese, tal qual uma equação. Se o autor tivesse ficado mais atento aos avanços da ciência contemporânea - as descobertas da física quântica, os avanços da teoria da informação e do conhecimento, os avanços teóricos e metodológicos dos estudos sobre o pensamento complexo - poderia ter dado outros contornos interpretativos a sua pesquisa.

A ciência de hoje não é a mesma que Descartes conheceu. Os princípios cartesianos contribuem pouco para as pesquisas científicas atuais, caso primem por interpretações mais polifônicas, mais dialógicas e não lineares.

Numa pesquisa grandiosa e audaciosa como a que Trajano realizou, seria mais pertinente ter ouvido, desde o início, os conselhos de Sören Kierkegaard: "é necessário duvidar de tudo". Acrescento: é necessário duvidar até mesmo da evidência, da análise e da síntese. Nesse sentido, vejo dois problemas básicos na obra de Trajano: um de natureza metodológica e outro de natureza interpretativa e conceitual.

METODOLÓGICO. A síntese dos 50 maiores erros da humanidade apresentados em 50 capítulos do livro, podem levar o leitor desatento a reduzir a complexidade dos fatos a apenas um fator final, a uma única causa do "erro fatal".

Richard Darwkins dizia que "os cientistas - os especialistas em desvendar o que é verdade sobre o mundo e o universo - frequentemente trabalham como detetives". Eles vão ao local dos acontecimentos, buscam incessantemente provas irrefutáveis, desconfiam das evidências, não fazem afirmações precipitadas, questionam as provas. Um bom detetive deve sempre rever suas visões e repensar seu pensamento.

Um bom pesquisador deve ficar atento a esses requisitos. Explicar algo de modo científico requer pesquisa criteriosa, rigor, inovação interpretativa e ir além das provas evidentes.

Sabemos que não há, de fato, informação real porque história é interpretação, como pensa o epistemólogo francês Edgar Morin. A interpretação não concerta os fatos, mas os reconstroem a partir da concepção e da referencialidade de quem os interpreta. A interpretação gera conhecimentos, produz outros sentidos, constrói outras verdades. Não podemos inventar verdades baseadas somente na síntese, na análise e nas evidências.

No livro "O método 5: a humanidade da humanidade", Morin soube perceber que "a realidade não é facilmente legível. As idéias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que podem traduzir de maneira errônea. Nossa realidade não é outra senão nossa idéia da realidade". Interpretação é tradução, reconstrução dos acontecimentos à luz da concepção do intérprete. Ao interpretar um fato, o risco da ilusão e do erro se faz presente na subjetividade do sujeito conhecedor, do pesquisador.

Nossas descobertas e conclusões pessoais podem não ser as verdades do mundo. Eu repensaria inúmeras vezes antes de dizer, como Trajano, que "o erro fatal de Mozart foi nunca ter dado atenção a sua saúde". Esse é um pensamento comum e simplificador porque esse é um problema que pode, indistintamente, afetar todos nós. É imprudente apresentarmos verdades conclusivas sobre fatos históricos complexos, de forma superficial.

O livro de Trajano traz uma forte visão pessoal e valorativa sobre os fatos. O leitor pode perceber isso, claramente, quando ele diz, sem argumentos convincentes, que Al Capone não tinha má índole, que "Al Capone foi fruto do contexto social da época". Por outro lado, ele diz, apressadamente, que Lampião foi um "vilão". O argumento que Trajano usou para defender Al Capone é o mesmo que os estudiosos do Cangaço usam em defesa de Lampião quando dizem que Lampião foi herói e não bandido. As afirmações de Trajano se tornam redutoras. Diante das assertivas e diagnósticos do autor, fico me interrogando: será que o erro fatal de Al Capone foi ele não organizar melhor seus livros-caixa sobre as transações ilegais de bebidas? Será que o erro fatal de Lampião foi ele não ter tomado as precauções necessárias a sua segurança e a de seu grupo?

Ao ler os 50 capítulos do livro de Trajano - cada um dedicado a um "erro fatal da humanidade" - o leitor não deve ficar surpreso se encontrar algum erro fatal na interpretação do autor. Trajano admite a possibilidade de ter cometido alguns equívoco e isso expressa e engrandece a importância da leitura de sua obra. Ele teria cometido um grande erro se não tivesse, a priori, admitido tal coisa.

Trajano abre seu livro com uma bela epígrafe de Marc Bloch, que diz: "Da ignorância do passado, nasce fatalmente a incompreensão do presente", mas ele poderia ter acrescentado: da ignorância do presente, nasce, fatalmente, um futuro de seres ignorantes.

CONCEITO E INTERPREÇÃO. Trajano sabe que "os acertos não são tão pedagógicos quanto os erros". Desconfio que ele tenha cometido alguns deslizes propositais para que o leitor possa aprender um pouco mais sobre a história e seu livro cumprir o papel a que ele se destina: ser mais um questionamento no mar de incertezas e interrogações que envolvem a história.

Cabe ao leitor, principalmente aos historiadores, observar os erros de quem apontou os erros dos outros. Trajano admite que ele não é o dono da verdade. Assim, os leitores de seu livro podem ficar livres para chegarem a outras interpretações sobre os mesmos fatos. A interpretação do autor não deve ser vista como o ponto final de uma longa história. O livro é para ser abraçado e questionado.

Sabemos que errar é humano porque somente os humanos são capazes de reorganizar suas vidas e relações societárias com base em seus próprios erros. Por isso, os erros se tornam pedagógicos. É assim que o homem se torna extremamente humano: errando quando pensa estar agindo certo, acertando mesmo diante da possibilidade de cometer erros.

A concepção de erro é muito relativa. Hitler, por exemplo, achava que invadir a cidade de Stalin nas condições em que ela estava, era o correto a fazer. Achando fazer o certo, Hitler errou na estratégia. Esse erro de estratégia foi fundamental para ele ser detido. Segundo Trajano, o erro fatal de Hitler foi, exatamente, esse: "a imbecil vontade de tomar a cidade de Stalin". Pergunto-me: se o erro dele foi esse, significa dizer que antes disso ele fazia as coisas certas? As ações de Hitler expressam suas visões de mundo, sua verdade totalitária. Penso que seu erro foi construir uma única verdade absoluta a partir da qual julgou, desrespeitou e condenou o outro por ser diferente. Percebemos, portanto, que "o erro é, em sua essência, algo subjetivo. O que é erro para um indivíduo talvez não seja para outro". Trajano deveria ter seguido essa idéia, apresentada por ele mesmo, na abertura de sua obra.

Como disse Morin, "o erro e a ilusão são os problemas cognitivos permanentes da mente humana". O que apontamos como erro do outro pode ser apenas um problema, um erro e uma ilusão de nossa mente.

Se o autor tem uma visão relativizada de erro, ele não poderia ter norteado suas pesquisas dando ao "erro" uma delimitação "teológica". Somente na concepção teológica a idéia de erro está ligada a de pecado e de desvio. A interpretação dos fatos históricos feita por Trajano poderia ter seguido outro ideário para que sua pesquisa não pudesse ser acusada de reducionista.

A idéia religiosa de erro está, sem dúvida, associada ao pecado, ao desvio e este significa desobediência aos Mandamentos. É arriscado assumirmos o conceito de erro como desvio. Observamos na história da arte, da música, da literatura e da ciência que, às vezes, desviar do padrão, do caminho estabelecido, foi a salvação. Aqueles que, consciente ou inconscientemente, desviaram do padrão fizeram obras grandiosas. Portanto, é um erro seguirmos apenas um caminho, abraçarmos apenas uma concepção de erro ou verdade.

HUMANIDADE. Uma outra idéia poderia ter sido melhor esclarecida e tematizada na obra de Trajano: a idéia de humanidade. Quando pensamos nos grandes erros da humanidade, pensamos naqueles que tiveram ressonâncias planetárias, universais, erros cujas conseqüências a humanidade inteira pagou por eles. Ao ler o título da obra de Trajano, imaginamos que os erros da humanidade seriam aqueles "fatos históricos que mudaram o destino da humanidade" (Trajano). Ao que parece, essa idéia só serviu para a apresentação da obra e não para a interpretação dos fatos.

Como grandes erros da humanidade, poderíamos citar a Santa Inquisição, a destruição da biblioteca de Alexandria, a peste negra, a destruição das florestas, a Primeira Guerra Mundial, o nazismo, a bomba atômica, o aparthaid, o muro de Berlim, a guerra no Vietnã, a destruição da camada de ozônio, o desastre nuclear de Chernobyl, o 11 de setembro... Por um lado, Trajano acertou ao apontar esses erros porque a gravidade de um erro é medida pela sua extensão societária. Por outro lado, não foi pertinente ele afirmar que o erro de Marilyn Monroe foi ter escolhido viver sozinha. É sabido que Marilyn teve vários amores e amantes e se casou mais de uma vez. Ao contrário do que pensa Trajano, a companhia de um marido não é vital para uma mulher. Isso pode ser visto como preconceito machista, já que a nossa história da vida cotidiana mostra que viver sozinho é perfeitamente possível.

A solidão dessa estrela chamada Monroe não fez mal a ninguém para ser considerada como um dos maiores erros da humanidade. Para uma mulher como Marilyn, que teve a vida cheia, agitada, corrida e intensa, viver sozinha talvez fosse a única escolha possível, uma salvação. Para ela, a solidão pode ter sido aquele luxo que somente poucos podem experimentar (Clarice Lispector).

Sei que meus comentários são próprios de um "advogado do diabo", mas faço isso deixando brechas para o diálogo continuar e a história não ficar amordaçada. Mesmo com todos os recursos teóricos, técnicos e metodológicos da ciência moderna não podemos dizer que conhecemos a verdade porque esta certeza está longe de ser a garantia contra o erro. Sei que os erros são pedagógicos. Eu estou aprendendo muito com eles, inclusive com os meus. 

SOBRE O AUTOR: É coordenador desta coluna, Prof. da Universidade do Estado do RN, doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, pesquisador do Núcleo de Estudos da Complexidade (COMPLEXUS/PUC-SP) e do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Linguagem e Constituição do Sujeito (SUBJECTUM).

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